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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Ideias para adiantar o fim do mundo: uma retrospectiva de experiências paulistanas

A coisa mais distópica que vi em São Paulo esse ano foi o Largo da Batata ("Potato Square") vazio exceto por uma porção de entregadores dos aplicativos Rappi, iFood e Uber Eats esperando pela próxima corrida. Era uma noite de domingo e depois soube que aquele havia sido o dia mais frio do inverno em 2019, o que talvez explique a completa falta de movimento num lugar que costuma ser tomado por jovens bebendo Corote Sabores™ nos fins de semana.

Não satisfeita em estar na rua no dia mais frio do ano, eu estava em um date no dia mais frio do ano, e o Largo da Batata ("Potato Square") era nosso último destino desesperado depois de encontrarmos alguns bares fechados e de sermos expulsos de outros dois que resolveram fechar mais cedo por causa do frio. Andar por uma São Paulo vazia naquela noite de domingo foi como andar por uma São Paulo do mundo invertido, foi uma falha na Matrix da metrópole, eu e aquele garoto uma espécie de sobreviventes de um apocalipse obviamente causado pela economia de inovação e o aquecimento global.

Terminamos a noite dando uns amassos no sofá da Void, também vazia. Foi minha primeira e até agora única experiência na Void General Store e não posso reportar muito do local, pois não consumimos nada. Pouco antes da meia-noite um garçom começou a limpar a garganta perto de onde estávamos, assim como fazem nos filmes, e avisou que eles estavam fechando. Nós ficamos encostados na parede rindo e soltando fumaça pela boca achando graça daquele Largo da Batata ("Potato Square") deserto enquanto esperávamos nosso Uber chegar.

Se eu fosse escrever uma ficção científica sobre nossos tempos essa definitivamente seria a cena de abertura. No cenário pós-apocalíptico, restam as baratas, os aplicativos e os jovens que só querem um lugar tranquilo pra se pegar.

Sofá da Void General Store: 10/10

Largo da Batata ("Potato Square") - (Foto: Moacyr Lopes Junior - Folhapress)

***

A segunda coisa mais distópica que aconteceu comigo em São Paulo foi ser abordada por um gringo oferecendo drogas na saída da estação Eucaliptos da Linha 5 - Lilás do metrô.

Andar na Linha 5 - Lilás do metrô já é, em si, uma experiência distópica. Para começar, ela é lilás. As pastilhas que decoram a estação são lilases, os trens têm detalhes em lilás, o ar-condicionado é sempre muito frio, do tipo que deixa nossa unha meio lilás. Depois, ela fica tão embaixo da terra que o celular não pega de jeito nenhum, um tipo de isolamento que nenhuma outra linha proporciona e que surge como uma surpresa nos nossos tempos de hiperconectividade graças ao advento das redes sociais.

A saída da estação Eucaliptos, que faz parte da Linha 5 - Lilás do metrô, dá para um pátio de concreto que também é majoritariamente habitado por entregadores dos aplicativos RappiiFood e Uber Eats, mas que sempre parece vazio e quieto de um jeito estranho, principalmente porque está localizada em frente à sempre movimentada Avenida Ibirapuera e ao shopping Ibirapuera. "Estranho", no entanto, não é um conceito estranho para a zona sul de São Paulo, por onde passa a Linha 5 - Lilás do metrô, e para a cidade de São Paulo, de modo geral.

Nesse dia, enquanto esperava minha amiga Clara sentada em uma mureta do pátio, um homem se aproximou e disse algo que não entendi bem porque estava de fones. Quando desliguei a música percebi que não entendia direito o que ele estava dizendo porque ele não falava português, mas algo entre português e espanhol com o sotaque muito carregado. Ele disse que eu era muito bonita e me convidou para fumar com ele e outro amigo que estava sentado adiante. Então minha mãe tinha razão, as pessoas realmente faziam isso.

Recusei e agradeci do jeito mais firme que consegui, ele insistiu e disse que eles só queriam fumar e conversar; recusei de novo, então ele tirou do bolso um beck muito bem bolado e quis me dar de presente, porque eu era muito bonita. Eu estava usando uma calça de moletom cor-de-rosa e uma camiseta da Beyoncé. Recusei meio sem acreditar que aquilo estava realmente acontecendo e quando ele se afastou o segurança da estação Eucaliptos apareceu pra perguntar se estava tudo bem. Disse que sim e ele fingiu não ver aqueles gringos - brancos - fumando um às 16h.

Infelizmente me senti muito descolada por vivenciar essa lenda urbana, enfim cool o bastante para alguém me oferecer drogas na rua.

Anna Vitória: 2/10

Estação Eucaliptos - (Foto: Wikipedia)

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A terceira coisa mais distópica que aconteceu não só comigo, mas com a cidade de São Paulo de modo geral, foi o surgimento do Méqui 1000 da Avenida Paulista.

"É um McDonalds. Num casarão antigo onde ficava um banco. No meio da Paulista.", foi a descrição que minha amiga Anacê usou para definir o local e também para me convencer de visitá-lo, o que foi uma estratégia muito eficiente da parte dela.

O Méqui 1000, localizado no número 1811 da Avenida Paulista, é a milésima unidade da franquia no Brasil, onde está há 40 anos. Segundo apuração da editoria especializada Mídia e Marketing do Uol, "a loja pode ser considerada um piloto do 'McDonald's do futuro'", um novo ponto turístico para a cidade com capacidade para 300 pessoas sentadas, área verde, espaço para shows e eventos especiais, bicicletário, totens de autoatendimento e funcionamento 24h. Sem ironia alguma, João Branco, diretor de marketing do McDonalds no Brasil, declarou: "[O Méqui 1000] É quase uma propaganda de televisão, não um restaurante".

Enfim chegamos no futuro e ele se parece com a cidade de Pawnee. Pensando em fazer algo legal para encerrar o primeiro ano de Trash Advisor, eu e Anacê decidimos almoçar no Méqui 1000 num sábado desses.


Fachada do Méqui 1000 (Foto - Acervo pessoal)

De fato toda a experiência Méqui 1000 parece feita sob medida para ser reportada nesse veículo. A ideia para esse blog surgiu nos meus primeiros meses em São Paulo, porque queria registrar as experiências esquisitinhas que se vive por aqui nesse momento esquisitaço do mundo quando você é uma pessoa com consciência social o suficiente para se perceber parte das contradições da sociedade de consumo moderna mas ainda não possui princípios o suficiente pra deixar de pedir delivery.

Eu não queria me acostumar com São Paulo ou com todas essas coisas - nem deixar de me incomodar com as coisas ruins, nem deixar de me deslumbrar com as coisas boas. Eu também andava meio triste, frustrada, e precisava me apropriar da cidade e da minha nova vida por aqui. Deu tão certo que não consegui mais arranjar tempo pra registrar essas experiências, mas queria retomar o projeto em 2020 tendo como objetivo o melhor efeito colateral que esses posts acabaram causando: me divertir escrevendo umas bobajadas pra fazer meus amigos rirem na internet. Isso significa que precisarei voltar ao Méqui 1000.

A verdade é que como acontece com muitos pontos turísticos e como a cidade de São Paulo de modo geral, a experiência no Méqui 1000 foi atrapalhada e talvez arruinada pelo hype do local. No dia que fomos o local estava tão cheio que foi difícil me concentrar na FRUIÇÃO daquele espaço e no tipo de imersão que ele propõe ao oferecer uma escultura de hambúrguer gigante pendurada no teto - em contraste com o piso de mármore e a escada do casarão, que parece um cenário de As Patricinhas de Beverly Hills - e um cardápio especial com 15 itens exclusivos.

As filas dos totens de autoatendimento se misturam umas com as outras e eventualmente se chocam com a fila das pessoas esperando seus pedidos e talvez esse tipo de caos seja o mais próximo que já cheguei de tentar fotografar a Monalisa. A melhor coisa que aconteceu na minha visita ao Méqui 1000 foi a competição que eu e minha amiga Anacê criamos de ver quem demorava menos tempo pra fazer o próprio pedido depois de passarmos uma boa meia hora vendo as pessoas se demorarem ao escolher a sobremesa e errando o próprio CPF na nota.



Pão de queijo burguer e McVeggie (Fotos - Acervo pessoal)

Quando me fez o convite para conhecer o Méqui 1000, minha amiga Anacê se propôs a experimentar o famigerado pão de queijo burguer, que é exatamente isso que vocês estão pensando. Eu comi um McVeggie pela primeira vez para ver se o McDonalds estava ignorando a corrida espacial do hambúrguer vegetal por uma boa causa - a resposta é não.

Na primeira mordida, Anacê disse que o pão de queijo era ruim, mas a ideia não era de todo errada e disse que tinha certeza que até o final da refeição ela estaria achando o pão de queijo burguer bom, que é basicamente a experiência de qualquer pessoa no McDonalds. No entanto, ao final ela só concluiu que era muito ruim mesmo e não havia salvação para aquela experiência.

O Méqui 1000 drenou minha energia vital de tal modo que perdi completamente a capacidade de elaborar qualquer observação engraçadinha e espirituosa sobre o local, eu só queria sair de lá. Eu e Anacê fomos embora tristes e com um pouco de azia e eu até esqueci do McFlurry Kit Kat de morango, outra especialidade local que gostaria de experimentar.

Fica então o sentimento de promessa não cumprida, mas o desejo sincero de voltar - esse, afinal, é o espírito desse veículo.

Estava certo Pedro Arbex, do veículo de negócios Brazil Journal, que encerrou sua reportagem sobre o Méqui 1000 da seguinte forma:

Na sexta, do lado de fora da loja, hordas de millennials paravam para observar a fachada e comentar o letreiro, onde se lia “Méqui 1000.” Quase todos tiravam fotos, antes de entrar e entregar parte do salário.

Se eu fosse transformar esse blog em livro, essa certamente seria a epígrafe.

Sei lá mein (Foto - Acervo pessoal)

Méqui 1000: 4/10

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Borba Gata: A oitava maravilha do mundo

Apesar de todo o horror, toda crueldade, todo o sangue derramado, ouso dizer que os bandeirantes trouxeram o total de 01 (uma) coisa boa à História Mundial: o Borba Gato. Digo, não o Borba Gato, pessoa histórica que participou das Bandeiras, matou e escravizou indígenas, e ainda assassinou um fidalgo (???) e depois fugiu pro sertão de Minas Gerais. Tô falando da impávida e colossal estátua do Borba Gato, na entrada de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

Impávido colosso (Autor desconhecido)

Muito se fala sobre a cidade de São Paulo. Os lugares escondidos no centro, os skatistas convivendo com os atores na Roosevelt, os lugares moderninhos de Pinheiros, os alternativos todos iguais da Vila Madalena, o orgulho da ZL, e agora ainda temos os homens adultos de terno dirigindo patinetes pelas áreas empresariais. Mas o que muitas vezes se perde em todos os comentários sobre essa cidade que não consegue aceitar o biscoito em seu coração é a gigantesca e confusa região de Santo Amaro.

A região que se tornou município independente em 1833, mas voltou a ser incorporada pela cidade de São Paulo em 1935. A região que mais teve imigrantes alemães da cidade, misturado a um fluxo pesado de migrantes nordestinos. Uma região com tanta gente, tanto comércio inexplicável, e tanto de tudo que é impossível descrever. Santo Amaro é uma experiência de vida. O distrito que abre a gigantesca zona sul de São Paulo (aka: o pescoço da girafa no mapa) e que é aberto pelo impávido Borba Gato.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

A corrida espacial do hambúrguer vegetal: o futuro chegou?

Nos anos 60, quando os cientistas quebravam a cabeça em busca de maneiras de levar o homem e alguns cachorros para a lua, o futuro prometia carros voadores, botas prateadas e naves espaciais. Em 2019, enquanto não colonizam o espaço, cientistas e grandes corporações quebram a cabeça em busca de maneiras da fazer o hambúrguer vegetal perfeito.

As pessoas finalmente estão se ligando de que o mundo vai acabar antes que a gente consiga fugir daqui, então é preciso fazer alguma coisa - nem que seja um sanduíche.

Por mim tudo bem.



Futuro, não por acaso, é o nome do "primeiro hambúrguer brasileiro 100% vegetal". Segundo o veículo especializado Prazeres da Mesa, o Futuro Burger é feito a partir de proteína de ervilha, proteína isolada de soja e de grão-de-bico, e beterraba. Com 17 gramas de proteína, a iguaria ambiciona igualar os índices proteicos do Futuro Burguer aos valores nutricionais da carne vermelha.

Mas o pulo do gato está mesmo na FRUIÇÃO do Futuro Burguer. Diferente dos hambúrgueres vegetais que estava acostumada, ele vem com a promessa de oferecer uma experiência muito similar a de um hambúrguer animal, com a mesma cor, textura e suculência de seu parente da indústria pecuária. A beterraba, aliás, faz as vezes do rosadinho da carne - também conhecido como sangue - daquele hamburgão no ponto da casa que o diabo adora.

A primeira vez que provei um Futuro Burguer foi na ocasião de seu lançamento oficial, na feira gastronômica Smorgasburg, o maior festival de comida de rua do mundo que teve sua primeira edição em São Paulo no início de junho de 2019, há 84 anos. No intervalo de uma semana vi tantos releases falando do evento e do hambúrguer que decidi prestigiar a classe (assessoria de imprensa da Fazenda Futuro) e ver qual era.

(Foto: Acervo pessoal)

No quiosque da Lanchonete da Cidade, restaurante que adotou o Futuro Burguer em São Paulo, só era possível pedir o LC Futuro, um X-salada básico 100% vegano feito com queijo Nomoo e maionese vegetal. Custou R$25 e achei meio qualquer nota, pequeno e pouco caprichado, mas dei um desconto pela ocasião da feira e a necessidade de se produzir rápido para evitar filas.

O Futuro Burguer, no entanto, me deixou meio bolada. "Que bruxaria é essa?", pensei depois da primeira mordida ao ver o suco da beterraba escorrendo como sangue. O gosto, contudo, é bem mais leve que o de um hambúrguer artesanal bovino, e imediatamente me veio à mente o gosto de um hambúrguer de peru Sadia, mas de um jeito bom. Nem lembro se já comi um hambúrguer de peru Sadia pra saber. Saldo final: Nem Melhor, Nem Pior, Apenas Diferente.

Após relatar minha experiência no Instagram, meus amigos da rede social me incentivaram a dar uma nova chance à iguaria, mas dessa vez em um dos outros sanduíches da Lanchonete da Cidade. Isso é realmente legal, pena que exclui os veganos da brincadeira: no restaurante, você pode pedir pra substituir qualquer um dos hambúrgueres da casa pelo Futuro Burguer. Experimentei dois: "Cooper" (molho inglês, cheddar Joseph Heller e mostarda dijon no pão de hambúrguer preto) e "Paris" (queijo brie Serra das Antas, cogumelos e molho poivre no pão de estrela).

O veganismo que me perdoe, mas achei os dois bem mais gostosos que o LC Futuro original. Ainda acho os sanduíches da Lanchonete da Cidade pequenos, mas estavam caprichados o suficiente pra valer o preço na faixa de R$26 a R$30, não lembro mais quanto paguei.

"Cooper" @ Lanchonete da Cidade (Foto: Acervo pessoal)

Quando discorri sobre a diferença entre salsichas vegetais e animais, defendi a importância de se emular a experiência completa de se comer um cachorro-quente em vez de soluções alternativas mais saudáveis, tipo a salsicha de cenoura. Não sei se esse pensamento vale para um hambúrguer.

Isso porque, animal ou vegetal, a salsicha é um alimento que em sua essência possui a característica de parecer qualquer coisa, menos algo natural. Portanto, sua origem faz pouca diferença na experiência - nada contra, muito pelo contrário. Já o hambúrguer realmente traz em seu ethos a identidade da carne, e não sei até que ponto isso é bom. Ou melhor, para quem isso é bom.

Para pessoas em transição ou vegetarianos/veganos que sentem muita falta de carne acho o Futuro Burguer uma solução perfeita, para quem apenas quer reduzir o consumo também. Mas ouvi relatos de pessoas que não gostaram justamente porque é tão parecido com carne que chega a causar uma certa repulsa. Ainda não cheguei nesse estágio, mas entendo o incômodo.

Nesses tempos que estive ausente, andei escrevendo sobre economia e negócios (kkkk) e nas minhas pesquisas em veículos startupeiros li muito sobre foodtech e o mercado (rs) plant based, que inclusive é matéria de capa (que coisa mais ANTIGA) da edição mais recente da revista Exame. Como o ano é 2019, o jornalismo acabou e ninguém mais assina revista, vou deixar aqui a chamada da reportagem:

"A reinvenção da comida: carne sintética, superalimentos, ingredientes modificados, produtos orgânicos, com menos gordura, açúcar e sal. Novas tendências de consumo começam a provocar uma revolução na indústria de alimentos em todo o mundo."

A princípio tudo que vem afrontar pra afrontar o agronegócio me interessa, mas tenho lido muito mais sobre a corrida espacial do hambúrguer vegetal em veículos de economia entusiasmados com a novidade do que na minha bolha tilelê. Marcos Leta, empreendedor por trás dos sucos Do Bem (rs) que é o fundador da Fazenda Futuro, parece obstinado em desbancar o mercado da carne, e a próxima fase é tornar o Futuro Burguer mais barato também nos supermercados.

Não vai me surpreender se esse futuro transformar um movimento sobre menos consumo e mais sustentabilidade numa coisa de arrombado, tão inovador quanto colonizar o espaço pra destruir mais um planeta quando esse aqui acabar. Mas ei, nós temos sanduíches!


Diante de todo esse agito, resolvi voltar com o blog na esperança de que algum desses empreendedores me chame pra comer hambúrguer de graça pra depois reclamar deles aqui. Vamos todos morrer mesmo.

Futuro Burguer: 7/10

Edit: A Fazenda Futuro lançou essa semana o Futuro Burguer 2.0, com a promessa de ser uma versão mais saudável e menos gordurosa do primeiro. Meu amigo Gio cobriu o lançamento pelo veículo de tecnologia Gizmondo e contou o que achou da novidade.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Sexo e a cidade: em busca do bar de date ideal

Em São Paulo todo mundo está procurando um trabalho, um apartamento e um amor. Essa frase não é minha, é da quinta temporada de Sex and the City, e fala sobre a Nova York idealizada de Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha, mas minha amiga Tany adora usá-la para falar sobre a nossa vida em São Paulo.

Na semana em que me mudei, sete dias depois do meu aniversário de 25 anos, comecei a assistir Sex and the City. É claro que fiz isso. Não existe nada mais clichê do que ser uma jovem adulta na cidade grande que compara suas experiências com Sex and the City. Por mais que eu não espere encontrar na série um espelho da minha realidade, preciso concordar que todo mundo aqui está mesmo procurando um trabalho, um apartamento e um amor, e parece que eu estou sempre em busca dos três.

Nessa economia o amor tem sido a ambição mais simples de resolver, e por amor eu me refiro também à experiência de sair com uma pessoa, conversar a noite inteira e depois nunca mais falar com ela. Tendo em vista essa motivação, há algumas semanas minha amiga Hianna descobriu um novo bar com potencial para ser um bom bar para dates e eu e Tany fomos as cobaias escolhidas para testar o estabelecimento - afinal, date de amigas é o único date ideal.


Tratava-se do Mundi Bar, em Perdizes, inaugurado em abril desse ano com a promessa de trazer drinks do mundo todo com inspiração nas viagens do empresário, um farmacêutico e bioquímico que largou tudo por sua paixão por viagens e coquetelaria. Uma clássica história de empreendedorismo!!!

Posso falar mais sobre o estabelecimento depois, mas não tenho muitas informações para oferecer pois ficamos bêbadas muito rápido e estávamos no Mundi Bar naquela noite para avaliar algo mais complexo do que comes, bebes e o nível de arrombamento da experiência. Quando saímos de lá para tomar uma cerveja num lugar mais barato, a pergunta que não queria calar era: seria o Mundi Bar um bom bar para dates?

A conclusão foi não, e tal e qual Carrie Bradshaw voltei para casa pensando: numa cidade em que todo mundo está em busca de um amor, o que seria um bar de date ideal?

Inspirada pela montagem tosca no início de cada episódio, fui atrás dos meus amigos em busca de uma resposta para essa urgente questão.


Matrona da busca pelo bar de date perfeito, Hianna Alves - 34, "infelizmente heterossexual" e identificação pessoal com Miranda Hobbes - deu um bom panorama sobre o que se deve buscar nessa empreitada:
"Apesar de andar num momento de extrema preguiça com homens em geral, date costuma ser uma situação gostosinha, mas que me deixa sempre ansiosa. Num primeiro contato, prefiro que seja perto de casa. Assim, se for ruim, não vou ter gastado dinheiro à toa com transporte. Se for bom, já posso quem sabe até estender o date. Também prefiro que seja num lugar no qual eu já esteja familiarizada. Date é uma oportunidade que você tem de conhecer e conversar com a pessoa, então é arriscado demais ir a um lugar desconhecido para ambos. Vai que é barulhento ou cheio de jovens ou cheio de jovens barulhentos? Desastre total.
Aqui em São Paulo a gente encontra muito bar conceito que investe mais em balcão do que em mesa. Eu acho essa ideia simplesmente péssima. Tem que ter mesa pra vocês sentarem um de frente pro outro e formar assim aquela atmosfera gostosa de flerte e de olhares. Cerveja e uns petiscos costumam funcionar bem. Você não corre o risco de ficar bêbada rápido demais (e falar umas bobagens) nem de comer algo muito pesado que pode atrapalhar na hora do beijo."

"Primeiramente elimine todos os espaços de luz alta", é o conselho de Ana Clara, 28, bissexual, sommelier e Charlotte relutante. "Se você sente que durante a noite quer beijar, senta no balcão ou em um sofá.", complementa, mas a dica de ouro é: "Se você não tem certeza do tanto de assunto que vocês vão ter, escolha um lugar que vai ser um assunto em si. Um bar peculiar ou temático."

Barbara Reis, 21 anos, bissexual se descobrindo a verdadeira Carrie Bradshaw do grupo, usou o estabelecimento Buraco, no centro de São Paulo, para ilustrar seu ponto: "É pequeno, intimista, tem mais bancos fofos do que cadeiras, o que te força a sentar do lado do date, o que acho muito propício. Se estivermos pensando em um date heteronormativo, o perigo de andar sozinha pelas ruas do centro pode ser usado como desculpa para estender seu tempo com o date. Sem falar que tem um potencial inegável para trocadilhos, o que eu valorizo enquanto mulher com vênus em sagitário."


Stephanie Noelle, 29 anos, uma amiga chique e uma personagem de Sex and the City sui generis, escolheu o Riviera Bar como seu favorito. "Eu sou muito chata com bar de drinks, bar de date então... A carta de drinks tem que ser ON POINT. Luz baixa, mas não muito escuro pelo amor de Deus. Luz de vela às vezes mas nem sempre."

A iluminação foi um critério apresentado por quase todos os meus amigos. Matheus Fernandes, 25 anos, gay e Samantha - "engraçada e puta" - disse: "Primeiro date tem que ser em bar de amante, não adianta: luzinha baixa, musiquinha de fundo, garçons discretos que não ficam palpitando. De preferência com uma boa carta de drinks, um vinho, caipirinha, e petiscos. Não vai pedir um OMELETE DE SHIMEJI igual o [redacted] fez comigo."

Odhara Caroline, 25, heterossexual, Miranda attitude/ Carrie feelings, lembrou da importância da sobremesa: "Cadeiras confortáveis, um bom espaço entre as mesas e SOBREMESAS pra você dividir um petit gateau com o possível mozão."

A menção ao petit geateau me fez pensar no Paradigma do Bar Ruim proposto por Antonio Prata, o qual já explorei em outra ocasião.
"Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda." 
Antonio Prata - Bar ruim é lindo, bicho!
"A maioria dos encontros de Tinder e coisas do tipo eu levo em bar ruim, que na verdade não acho ruim, mas se o encontro for uma bosta eu não tô gastando muito dinheiro", é a estratégia de Tany Monteiro, 30, "lésbica + Harry Styles", a outra Samantha da minha vida. "Sempre levo em boteco que tenha litrão, que nenhum dos meus amigos vai, e perto de casa porque assim não gasto passagem de metrô. Se for uma bosta o date deu tipo R$20 pra cada. Quanto mais trash melhor, não levo pessoas pra comer e se possível um bar que não tenha nem lugar direito pra sentar."

Contudo, para Matheus Fernandes, informalidade e intimidade são privilégios para dates futuros. Matheus foi responsável por introduzir um conceito muito importante na minha vida amorosa, o da quebra da quarta parede, que tem tudo a ver com a iluminação do local e também com a disputa entre bares ruins e sofisticados. Posso explorar isso numa futura oportunidade, mas fica a recomendação pra vocês: "Depois que criar intimidade [quebrar a quarta parede] taca uma luz alta, manda uma hamburgueria, o que você quiser, mas primeiro date é comida leve, carta de drinks bafo e luz baixa."


Outra grande controvérsia entre os entrevistados foi a respeito do lugar onde sentar. Tem gente que gosta de sentar do lado, tem gente que gosta de balcão, tem gente que gosta de sentar de frente. Clara Browne, 24, se identifica com a cidade de Nova York, a quinta protagonista de Sex and the City, e foi taxativa sobre sentar de frente ser a única opção possível: "Date é pra me admirarem, eu ser validada e daí nunca mais ver a pessoa na vida."

Lucas Rocha, 30 anos, gay do Rio de Janeiro e Charlotte com convicção, afirma: "A experiência de sentar de frente foi ruim. Atrapalhava o toque, a aproximação. Do lado é mais fácil de dar uns beijos. Balcão nem." Luisa Pinheiro, 27 anos, lésbica, maranhense vivendo em Curitiba, introduziu uma opinião polêmica: "Aqui em Curi é bom tomar chopp em pé para dates também caso as pessoas não estejam tão cansadas. Se for pra sentar que seja de frente, traumas de Gilmore Girls!!!"

Também não sei escolher: já sentei de frente, de lado, no balcão, em sofás e até no colo, e acho que existe o momento certo para cada uma dessas configurações. Minha única certeza é que odeio sentar como se estivesse pilotando a mesa ao lado da pessoa.


Além dessas questões básicas que introduzi a todos os entrevistados, um tema que surgiu em várias conversas e não pode ser ignorado em 2019 diz respeito ao AMOR LÍQUIDO. A melhor solução foi dada pela Luisa, que disse se identificar com a Mouse de The Carrie Diaries mas é a Samantha de acordo com o teste do Buzzfeed, o que pode ser comprovado empiricamente através da seguinte declaração: "[ O bar de date ideal é] Qualquer um que não seja seu bar preferido pra você não acabar perdendo seu bar pra outra pessoa. Mas pode ser o bar preferido da outra pessoa pois fodasse kkkkk".

Seria o nosso relacionamento com os bares o verdadeiro romance dessa história?

Para garantir representatividade na amostragem da minha pesquisa, achei que seria importante ouvir a opinião de um homem hétero. Afinal, o que querem os homens heterossexuais?
"Nem sei mais o que é isso, não sou de marcar dates. Mas se marcar provavelmente será no Beirute da Asa Norte. O Beirute é um dos bares mais antigos de Brasília, talvez o mais. Na verdade o da Asa Sul, o da Asa Norte abriu um pouco depois mas atualmente é mais frequentado. Gosto disso, de lugares já tradicionais e que grupos variados de pessoas frequentam, não só os jovens. Tenho aversão a lugar de jovem." 
Túlio Amaral, 28, disse que não tem condições de responder qual personagem de Sex and the City mais se identifica e não soube citar um outro personagem de série, então escolheu o Menino Maluquinho. 

Se você está familiarizado com Sex and the City provavelmente sabe que chegamos no final do episódio, o momento em que Carrie Bradshaw tem alguma epifania sobre o tema da vez. Eu já tive dates que começaram em livrarias (infelizmente mais de um), dates de café da manhã, date em que fui direto do trabalho sem saber que era um lugar chique (com piano e luz de velas!!) (dica: sempre tenha um batom vermelho na bolsa), e alguns dates absolutamente perfeitos - seja em bares ruins, em que éramos interrompidos por bêbados e gente querendo vender poesia, ou bar de amante com taça de cristal. Mas eu não sou a Carrie pra tirar uma conclusão a partir de alguma dessas experiências supostamente reveladoras.

Ainda não sei qual personagem de Sex and the City mais me identifico, mas adoro quando dizem que sou "muito Miranda", por isso encerro essa investigação dizendo que estou solteira e disponível para testar bares de date. O importante é a jornada não sei o que não sei o que lá. Feliz dia dos namorados!!

terça-feira, 11 de junho de 2019

Borba Gata: O que é isto, a Arte Feia?

Quando a AV [N/E: Anna Vitória] veio falar comigo sobre fazer esse humilde blógue, na época ainda não nomeado, ela me prometeu uma coluna pra eu escrever sobre algo que é a minha verdadeira paixão, mas que também é essencial na história da nossa amizade: a Arte Feia. Como de costume, eu esqueci dessa promessa. Então, a AV criou o blógue e, obviamente, fiquei muito inspirada por tudo nele. Outro dia, AV me lembrou da promessa que tinha feito e fiquei feliz como se fosse a primeira vez que estava recebendo o convite (na minha cabeça, era) e, assim, surgiu a coluna Borba Gata, em homenagem ao Borba Gato, a estátua que melhor resume a Arte Feia. No entanto, é imprescindível dizer que meu nome é Clara e, apesar de eu ser gata, eu não atenderei ao nome de Borba Gata. Esse é apenas o nome desta coluna, não desta pessoa que vos escreve (eu).

Achamos que antes de eu falar de Arte Feia, algumas coisas precisavam ser explicadas. Por exemplo: quem sou eu?, o que é Arte Feia?, o que faz uma Arte Feia ser boa?, qual é o corte? São questões complexas que aqui tento introduzir.

Todos os anjos são filhos de @/deus - Arte feia sob tela do computador ou celular (2018)
(Arte: Clara Browne)
"Quem sou eu?" é uma pergunta muito filosófica pra se responder assim no blogspot.com. No livro O Que é Isto, a Filosofia? (1956), o senhor doutor (aqui estou assumindo que ele era doutor, não vi o lattes dele) Heidegger tenta responder a pergunta dividindo-a em três partes: "o que é o o que?", "o que é o é"?, e finalmente "o que é a filosofia?". Como uma pessoa que não lê, eu não li esse livro. Eu também seria uma pessoa muito chata se aos 24 anos já tivesse lido O Que é Isto, a Filosofia?, do Heidegger. Eu não vou dividir as minhas perguntas em várias outras, mas fica aqui o sonho de ser esse tipo de pessoa, a chata. O que digo a vocês é que meu nome é Clara, é claro, e o resto vocês vão descobrir me lendo e/ ou me seguindo nas redes sociais (fica aqui o apelo: por favor, não me sigam na rua ou em nenhum espaço físico, em pessoa).

Uma Arte Feia e eu meio feia pra combinar
(Foto: acervo pessoal de Clara Browne)

Também digo aqui que eu amo arte. Eu tenho opiniões muito fortes sobre todas, e eu gosto muito de artistas sérios e consagrados, como Yves Klein, Basquiat e Lygia Clark, se for pra jogar uns nomes espertos. Mas se for pra escrever coisa consagrada, eu faço mestrado e doutorado. Aqui, vou falar de algo muito mais importante e pouquíssimo olhado pelos críticos e estudiosos, um nicho gigantesco quando você para pra prestar atenção, a coisa mais assustadora e fascinante que existe na nossa sociedade: a Arte Feia.

Agora diferente de quem sou eu, que pode ser algo meio largado (até porque minha terapeuta me ensinou que a noção de um eu coeso é uma ilusão) (ILUSÃO!!!!!) é importante delinear o que é a Arte Feia. Não vou explicar o que é o o que, ou o que é o é pra isso. Leiam Heidegger se quiserem saber. Também não vou explicar o que é arte, porque esse é um debate interminável. Mas vamos usar aqui a definição capenga e ao mesmo tempo marota que veio com o Modernismo de que Arte É Tudo Aquilo Que Artista Faz. Ou seja (mas mais ou menos): arte é qualquer coisa. Você só tem que Querer que essa qualquer coisa seja arte. Mas Arte Feia não é qualquer coisa que você quiser.

Pra começar, Arte Feia não pode ser bonita. E, por bonita, quero dizer que não pode ser algo que você olha e sente um prazer estético genuíno. A Arte Feia é algo que dói o olhar, que te ofende não por questões políticas, mas por questões estéticas.

Sabe aquela coisa que você odeia tanto que você ama? Aquela coisa que é tão horrível que te faz rir descontroladamente? Aquela imagem tão absurda que faz até o caos ao seu redor parecer razoável? É disso que eu tô falando. É o inexplicável. É a essência do Nada A Vê. É o que alguns chamam de Calamidade. É o Borba Gato, pai da Arte Feia. É a camisa nada a vê do Pluto que eu achei na Zara uma vez. Os leões da Grécia Antiga. O sapato Crocs na cor roxa. São as vacas mais feias da Cow Parade. É, talvez, a existência da Cow Parade por si só. São os bbs Jesus renascentistas.

A Arte Feia atravessa os séculos, desconhece limites geográficos, não se retém a uma única forma, objeto ou artefato.

A Arte Feia é um objeto visual que transcende a necessidade de uma única forma. Pode ser um quadro, uma estátua, uma blusa, um detalhe de uma fonte no parque Trianon. A Arte Feia transcende a própria noção de objeto, fazendo dele Algo Além. É o mesmo sentimento quando você vê um quadro que você gosta. É a mesma admiração, a mesma contemplação, mas às avessas. É algo que você olha e você simplesmente Sabe. É uma experiência transcendental e contemplativa.

A camisa nada a vê do Pluto que eu devia ter comprado
(Foto: acervo do Instagram Stories de Clara Browne)
Agora é importantíssimo que vocês entendam: a Arte Feia não é qualquer objeto visual que é feio. A Arte Feia te deixa FELIS, com s. Ela te desconserta e te tira da sua realidade estética, fazendo disso uma experiência única e memorável. Existem muitas artes que são feias no mundo e nem todas podem ser consideradas Arte Feia. Artes que são feias te deixam triste, te deprimem, fazem você querer desistir de tudo porque o mundo não tem salvação. A Arte Feia é o contrário: ela te enche de uma alegria inexplicável, ela vai sempre trazer a felicidade mesmo que quando apenas na memória, ela te faz acreditar que o mundo pode ser salvo porque Ela, a Arte Feia, existe. E é a isso que essa coluna será dedicada.

Se você não entendeu perfeitamente o conceito, não tem problema. Afinal, esse aqui é apenas um blogspot.com, não um livro teórico. É por isso também que você está lendo: porque é apenas um blogspot.com, não um livro teórico. E eu te respeito por isso. E também entendo que existe um poder nisso, uma potência. E, por isso, por causa dessa potência, que hoje te convido a deixar o mundo mais FELIS junto a mim e à Arte Feia.


Clara Browne é uma pessoa, não um bolinho. Borba Gata é sua coluna para falar de Arte Feia e filosofias de botequim quando enjoar de tanta Arte Feia. Você pode encontra-la no instagram @brownebrownie, no tuíter @BrowneBrownie, na sua newsletter ou na sua casa, mas essa aí fica pros íntimos.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Também sou hype e odeio isso: uma visita ao Tokyo 東 京

- Quem é moderno aí, meu?

Tudo começou a dar errado quando a MTV Brasil - aquela MTV Brasil com a Sarah apresentando o Disk, o canal que me fez querer ser a Marina Person, aquela MTV do Beija Sapo e do Hermes e Renato - acabou. A MTV não era um canal perfeito, mas nos seus melhores momentos ela era capaz de um humor quase anárquico e bastante autoirônico que faz falta nos dias de hoje. O mundo não ficou mais chato por causa do politicamente correto, o mundo ficou mais chato porque a gente não assiste mais Hermes e Renato.

A MTV conseguia rir de si e do seu próprio público sem cair no cinismo que percebo hoje de pessoas que não se permitem gostar de nada, estão o tempo todo brigando pra ver quem é mais autêntico, correto e desconstruído sem construir nada ou enxergar as próprias contradições, enquanto do outro lado têm os sem noção de sempre. A MTV e a cultura jovem criada por ela era muitas vezes ridícula, mas pelo menos ela sabia disso e dava umas risadas.



Toda essa reflexão pra dizer que odiei o ter amado minha primeira visita ao complexo Tokyo 東 京.


Same energy
(Fonte: perfil oficial de Barbara Reis, amiga pessoal e referência em juventude)

Para o complexo Tokyo 東 京 , definir-se é limitar-se. "Rooftop, bar, karaokê, restaurante, exposições, cinema, teatro, design, tattoo, experimentações, instalações, pista de dança com vista para o Copan e o Edifício Itália", é como se apresenta o estabelecimento em sua página oficial. No mesmo site, somos informados que o complexo Tokyo 東 京 fica localizado em "um prédio modernista e tombado de 9 andares, idealizado pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratkeem 1949, bem no meio do coração de São Paulo".

Em sua página no Facebook, o conceito do Tokyo 東 京 é expandido: "Um Bar no Terraço de um prédio. Karaokês inspirados nas noites de Shibuya. Um Restaurante com o clima da capital japonesa. E uma Pista de Dança na cobertura. Tudo isso no mesmo lugar. No centro de São Paulo."

Que raiva de tudo nesse texto!!!!


Minha visita ao complexo Tokyo 東 京 se deu no fim de tarde de um belo domingo de outono, e ouso dizer que essa é a melhor circunstância para se conhecer o local (guarde essa informação). De acordo com o calendário de festas, era dia de Tieta, evento que promete discotecagem de música brasileira na cobertura (rooftop) do prédio, o que você pode traduzir como "festa da esquerda festiva", termos que minha amiga usou ao me convidar na referida ocasião.

Disse que odiei ter adorado a experiência porque poucas vezes me senti tão parte de um TARGET como dentro do complexo Tokyo 東 京. Por conta de sua intensa presença digital na rede social Instagram, era de se pensar que eu estivesse imune aos encantos do local, como a vista do terraço (rooftop) e os letreiros engraçadinhos de neon, mas assim que alcancei o nono andar fui atraída como uma mariposa para o letreiro "ME ABRAÇA ME BEIJA". É claro que tudo ali foi pensado pra isso, para que pessoas como eu se encantassem e fossem quase obrigadas por forças superiores a parar e tirar várias fotos.

Eu era tão o público alvo daquele evento que até mesmo as músicas que tocavam pareciam saídas diretamente da playlist SUCO DE BRASIL (prestigiem!!), de minha autoria, que não tem nada de original e ousada, e esse é justamente o ponto. No complexo Tokyo 東 京, fui forçada a encarar o fato de que no fundo eu sou mesmo uma grande basiquinha. Esse encontro com minha própria banalidade foi importante pra lembrar que quase ninguém é tão especial e único assim, todo singelinho é um bichinho de matar com pedra em potencial. Talvez o seu ponto fraco não seja a mistura de luzes neon em prédios velhos de arquitetura modernista e uma playlist com Timbalada e Banda Eva, mas pouca gente está a salvo de ter sua personalidade traçada numa reunião de publicitário.

Eis aqui um exercício de humildade para essa sexta-feira: que tipo de música o Hermes e Renato faria sobre você?

Meu nome é Anna Vitória e eu contribuo para a publicidade espontânea da cena alternativa de São Paulo e de grandes marcas de cerveja (Foto: acervo pessoal)
E como o grande clichê que sou, é claro que minha sala favorita do complexo Tokyo 東 京 foi o karaokê. A fila pra cantar estava gigante, e a funcionária responsável, além de zoar meu nome, acabou esquecendo de me colocar na lista e eu e meus amigos tivemos que ir embora sem cantar. Mesmo assim o ambiente era agradável, propício para amizades espontâneas, acolhedor pra todo mundo que quisesse cantar junto, as pessoas tinham um excelente repertório e todo mundo parecia ter mais de 25 anos. Acredito que esse cenário mude nos dias e horários mais convencionais para uma casa noturna, mas eu gosto é de festa que acaba cedo e que começa quando os jovens ainda estão se recuperando da ressaca de sábado.

A grande surpresa da noite ficou por conta do casal hétero mais coxa do local, que parecia completamente deslocado, mas que em determinado momento da noite surpreendeu a todos com um inspirado dueto de Cher - Believe.

Preciso dizer que a sala do karaokê tem uma placa com a foto do Bill Murray, e eu disse "ah não" quando vi, mas a verdade é que eu ainda choro sempre que vejo Encontros e Desencontros e lamentei que o local não tivesse perucas cor-de-rosa à disposição - eu assumiria o risco de pegar piolho de desconhecidos para viver essa experiência. Fica aí a sugestão para o complexo Tokyo 東 京.





O único aspecto em que não me encaixo no público alvo do complexo Tokyo 東 京 é em relação ao poder aquisitivo. A entrada nesse dia era gratuita, mas o preço das coisas no bar era meio intransponível, ainda mais para o último domingo do mês. Tomei uma long-neck de R$13 e lembrei por que não frequento baladas de São Paulo. Minha amiga pagou R$10 por uma água de coco.

O saldo final fica por conta da música da finada banda NX Zero que não tive a chance de cantar: entre razões e emoções a saída é fazer valer a pena. Pra mim valeu.

8/10

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Usei o Rappi pela primeira vez para pedir um chá e você não vai acreditar no que aconteceu

Às vezes a gente tem que dizer ok pro capitalismo tardio.

Nunca tinha usado o aplicativo Rappi. O conceito de "delivery de qualquer coisa" sempre me causou certo desconforto, que se provou fundamentado depois dessa matéria sobre a rotina dos entregadores, e só o fato do ícone do aplicativo ser um bigode já dá indícios que esse negócio de "delivery de inovação" deve ser coisa de arrombado.

"'A nossa ambição é ser o super aplicativo da América Latina,' disse Ricardo Bechara, co-fundador e diretor de expansão e operações da Rappi Brasil. (Fonte: AmCham)

Navegar pela interface do aplicativo Rappi, com todas as possibilidades que ele oferece - de entrega rápida de camisinhas até a perspectiva de alguém ir ali no banco tirar dinheiro pra você - é uma das experiências mais distópicas que se infiltraram no nosso cotidiano. A estratégia de gamificação embutida no aplicativo Rappi, louvada pelos nossos guerreiros do LinkedIn (claro), me faz desconfiar que estamos pagando caro demais para viver no ano 2037.



Mesmo com todas as tentativas do aplicativo Rappi de me seduzir através do envio de rappicréditos de grandes valores todos os dias, valores que envergonhariam os cupons de R$10 do aplicativo iFood, consegui resistir por bastante tempo. Não me considero acima da condição de aceitar coisas de graça, principalmente comida, mas o aplicativo Rappi é um limite que eu realmente não estava disposta a ultrapassar. Não se pode dar o primeiro gole, etc.

Então eu fiquei gripada.

"O diabo mora nos detalhes", já dizia Leroy, ilustre participante de Instant Hotel, e é por essas frestas que o aplicativo Rappi consegue entrar na sua vida. Semana passada fiquei gripada e depois de passar o dia espirrando e tossindo nas dependências da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, concluí que precisava de um chá para sobreviver à aula do turno da noite.

Mas eu não queria um simples chá de sachê como os disponíveis nas cantinas mais próximas, eu queria um chá diferente, especial, um chá que fosse como um abraço de mãe vendido por grandes corporações. Como se lesse meus pensamentos, o aplicativo Rappi me enviou R$30 em rappicréditos que deveriam ser usados até às 20h59 daquele mesmo dia. Foi então que me despi do meu orgulho e abracei o capeta: não apenas pedi um chá usando o aplicativo Rappi, como pedi um CHAI LATTE direto no STARBUCKS. E um croissant, porque fiquei com vergonha de pedir só um chá.

Com os meus rappicréditos o valor da compra ficou em R$0,30, com mais R$4,00 de gorjeta para Valdinei, o entregador.

(Foto: acervo pessoal)

A odisseia entre o pedido e a entrega via aplicativo Rappi demorou uns 50 minutos, provavelmente o tempo que eu levaria pra ir até em casa fazer um chá no conforto do meu lar ou ir a pé até a unidade mais próxima da Starbucks. É muito, mas está dentro da margem de tempo prometida pelo serviço, foi o tempo que eu precisava pra ler o texto da aula, e esse é o preço que se paga por ser uma grande arrombada pela comodidade.

O delivery de fato demorou cerca de 10 minutos, o que foi muito bom, já que tanto o chá como o croissant chegaram bem quentinhos. O chai latte veio no clássico copo de papel da Starbucks, só que com a abertura vedada com plástico, impedindo que o líquido fosse derrubado no percurso - um dos meus receios iniciais. O gosto era exatamente o do conforto artificial vendido por grandes corporações que eu tanto precisava, idem para o croissant.

Acho importante levar isso em conta na hora de avaliar o que é servido por essas franquias, e dosar as expectativas de acordo, mas os preços da Starbucks são uma afronta a esse pacto civilizatório do fast food. Sem os rappicréditos essa palhaçada custaria R$30,30, e eu jamais repetiria a experiência nesses termos. Importante dizer que não recebi mais nenhum rappicrédito até o fechamento desta edição.


Quando contei sobre a experiência para uma amiga, ela disse: faltou uma consciência de classe aí, hein?, e eu até desisti de ir pra aula depois dessa. Mas eu estava gripada e defendo minhas escolhas. Às vezes a gente precisa dizer ok pro capitalismo tardio.

Aplicativo Rappi: 7/10
Starbucks: 6/10
Anna Vitória: 2/10

quarta-feira, 29 de maio de 2019

701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária

Se foi preciso alguma fé para inserir o 809U-10 Cidade Universitária - Metrô Barra Funda na minha vida, o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária entrou na minha vida porque, por algum motivo, ele sempre estava por ali. De acordo com o aplicativo Moovit ele passa em intervalos de 20 minutos - uma eternidade no peculiar vórtice de espaço/tempo do ponto de ônibus - mas por algum motivo nossos caminhos sempre se cruzavam. A cada vez que um dos circulares passava lotado e sequer parava no ponto, na sequência vinha um 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária e eu pensava: putz, por que não ele?

701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária era o melhor amigo da mocinha de comédia romântica (eu), aquele cara legal que está sempre ali, observando calado enquanto ela se ferra dando moral pra algum otário (8012-10 Cidade Universitária - Metrô Butantã).

"Você tá nessa, rejeitada/Caçando paixão/E eu com a cara mais lavada digo/Por que não?"
(Foto: Rogério da Silva Pereira, do portal Ônibus Brasil)
Eis que um dia, cansada de me humilhar num circular lotado, fiz uma breve pesquisa e descobri que, embora não fosse até o Metrô Butantã, o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária passava pela Avenida Vital Brasil e parava a dois quarteirões do metrô. Na época eu não tinha direito ao BUSP, então não fazia diferença qual ônibus eu pegaria pra sair da faculdade, era tudo R$4,30 - na época R$3,80 (sdds). Também não estava com pressa, o que depois descobri que também é um fator importante ao se considerar essa linha.

Para descer no metrô, o ponto fica em frente a uma agência do Banco do Brasil, uma boa referência se você é idiota igual eu e sempre desce no lugar errado.

Partindo da ECA até sair da universidade, o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária faz um trajeto bem mais longo que os circulares - nunca cronometrei, mas deve ser algo em torno de 15 minutos. Foi pela janela dele que conheci pontos turísticos como o Hospital Universitário e o Instituto Butantan. Para quem quer socializar e dar um close com uma galera das ciências biológicas pode ser uma boa opção, mas se o objetivo é chegar rápido no metrô é melhor repensar.

A rota do 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária abrange também alguns pontos interessantes de São Paulo: ele passa pela Teodoro Sampaio, para no finalzinho da Paulista, desce pelo corredor da Consolação até o centro, e é possível chegar até a rodoviária do Tietê com ele. Esse percurso até a Paulista costuma demorar uma hora mais ou menos e definitivamente existem jeitos mais rápidos de chegar lá saindo da USP, mas se não estou com pressa - ou quero um tempo sossegado pra ler ou ouvir uns podcasts, so far away - escolho o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária por uma questão de conforto e comodidade.

"Se não tem nada pra depois, por que não eu?"
(Foto: Rodrigo M. Correia, do portal Ônibus Brasil)
Na ECA pego o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária praticamente vazio, o que sempre é divertido porque o modelo é articulado e, portanto, muito mais espaçoso que os ônibus comuns. Ele também tem ar condicionado e costuma proporcionar uma viagem bem agradável, mesmo quando enche de gente à medida que avança na rota. O fato de ser articulado também dá alguma privacidade para quem senta mais ao fundo, o que faz do 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária uma boa opção para dates.

Recentemente perguntei no Twitter qual ônibus as pessoas escolheriam para ter um date e ignorei o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária na minha resposta. Hoje, no entanto, tal e qual uma mocinha de comédia romântica que olha para o melhor amigo e se pergunta como foi capaz de ignorá-lo por tanto tempo, acho que o 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária é a resposta mais correta e deixo a sugestão aos jovens universitários. Se a coisa engrenar, dá pra descer no centro, pegar um cineminha ou tomar um café.

Ainda não tive a oportunidade de ter um date no 701U-10 Metrô Santana - Cidade Universitária, mas certa feita, durante o longo percurso que ele faz até chegar no metrô, tive tempo de ler vários horóscopos diferentes e quando cheguei na plataforma sentido Luz criei coragem pra chamar o menino que eu gostava pra sair. Por que não eu?

7/10

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Me tornei aquilo que jurei destruir: bebendo em um bar de mackenzistas

Faz pouco mais de dois meses que me mudei pra São Paulo oficialmente, mas em 2016 passei uma temporada na cidade morando num quarto de hotel pago pela firma na Vila Buarque. Eu ia e voltava a pé do treinamento e passava todos os dias pela rua Maria Antônia no caminho volta, o que significa que de quarta a sexta eu precisava enfrentar uma horda de jovens universitários bebendo em pé pra chegar em casa. Não satisfeitos em ocupar as calçadas, eles ocupavam também boa parte da rua, não davam licença, derrubavam cerveja e faziam gracinha quando eu passava impaciente e de cara fechada no meio de alguma roda. Foi o inverno mais rigoroso de São Paulo dos últimos 20 anos e eu era uma jovem jornalista cansada que só queria tomar uma sopa barata e chegar logo no meu quartinho.

Essa experiência me deu local de fala para odiar o Mackenzie* e tudo que ele representa.

Apesar do Mackenzie, acabei me apegando muito a essa região, e ainda hoje passear por lá me enche de uma nostalgia gostosa desse início de vida na cidade, minha primeira aventura fora de casa e a primeira vez que senti que São Paulo poderia ser minha também. Essa é a única justificativa pra eu ter aceitado tão prontamente e sem questionamentos quando meu amigo sugeriu que parássemos no estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar para tomar uma cerveja na última quinta.

Jovens bebendo em pé (Foto: BaresSP)

Segundo o veículo especializado BaresSp:
"O Bar e Restaurante Kenzie foi fundado em 2004, conta com um público jovem e bonito formado pelos universitários da Faculdade Mackenzie e clientes de empresas situadas nas proximidades. Possui um serviço diferenciado de almoço, onde cada dia o restaurante oferece 5 opções extras de pratos, elaboradas pela chef da casa. À noite o destaque fica para as porções que são feitas na hora e servidas quentinhas para o cliente, além de lanches, salgados e todos acompanhados de drinks e cervejas. O estabelecimento trabalha com café expresso onde utilizam grãos 100% arábicos, conferindo um sabor especial ao tradicional cafezinho."
Lendo essa descrição só lembro da seminal crônica de Antonio Prata sobre bares ruins e o fetiche da simplicidade autêntica brasileira. De acordo com a classificação do escritor sobre bares meio ruins, talvez o estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar já esteja no estágio de ser frequentado por "meio intelectuais, meio de esquerda, e universitárias mais ou menos gostosas", em vias de ganhar uma matéria na Vejinha. No entanto, uma rápida busca por """Kenzie""" Restaurante e Bar no Google me fez desconfiar que talvez o estabelecimento tenha perdido o momentum necessário para fazer parte da gentrificação do centro expandido de maneira mais concreta. A essência é de um bar universitário, mas como a universidade é o Mackenzie a etnografia se torna mais complexa. Acho que eu era a única mulher no local na última quinta, e portanto a coisa mais próxima de uma universitária mais ou menos gostosa que o ambiente oferecia.

Preciso admitir, contudo, que os universitários do sexo masculino eram mesmo bem bonitinhos. Se você vem do interior, assim como eu, é fácil se emocionar com qualquer barbudinho estiloso que aparece na rua e em estabelecimentos como o """Kenzie""" Restaurante e Bar, ainda que o tempo e a vida na cidade te mostrem que em São Paulo - e principalmente no centro expandido - basta sacudir uma árvore que caem uns 20 do mesmo tipinho, é até difícil diferenciar. Bonitos os rostos enquanto pano de fundo, mas a graça passa quando eles começam a gritar por causa de futebol, o que aconteceu enquanto estive no """Kenzie""" Restaurante e Bar, experiência acompanhada por vários rojões na rua. Não consegui enxergar quem estava jogando na televisão do local.

"Um público jovem e bonito formado pelos universitários da Faculdade Mackenzie e clientes de empresas situadas nas proximidades" (Fonte: BaresSP)

Bom, mas vamos ao que realmente interessa: embora não constasse no cardápio, os litrões disponíveis no dia eram Skol e Brahma, a R$10 cada, um valor dentro da média para a região. Servida no copo americano clássico, a cerveja estava razoavelmente gelada e não tivemos problemas nesse departamento. Infelizmente esse foi o preço mais justo que encontrei em minha experiência no estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar. 

O cardápio é bem vasto, com várias opções de prato executivo, sanduíches, porções, drinks e doses. Teoricamente os pratos executivos são servidos apenas no almoço, mas não há informação sobre isso no cardápio, e o garçom que nos atendeu foi um bocado grosso quando meu amigo tentou pedir um nhoque. Depois ele disse que na verdade alguns pratos executivos poderiam ser pedidos (apenas os grelhados), até que ele voltou dizendo que dava pra pedir o nhoque sim.

Meu amigo não sabia, mas a confusão foi o universo tentando dizer que era melhor pedir outra coisa.

O nhoque mais triste do centro expandido de São Paulo (Foto: acervo pessoal)

Não costumo levar a sério todas as opiniões desse meu amigo sobre questões alimentícias pois discordo da maioria dos seus critérios (ele não gosta de queijo), mas o nhoque com iscas de frango estava mesmo difícil de engolir. As unidades de massa eram muito grandes, grossas, e vinham recheadas de um queijo de gosto forte - outra informação que não constava no cardápio - que até eu que gosto bastante de queijo não consegui tolerar. O molho tinha um sabor bem artificial, e a grande ironia é que a parte mais absurda do prato - as iscas de frango - foi a única coisa que prestou.

O nhoque com iscas de frango custou R$22,90, e o valor dos pratos executivos no estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar varia entre R$19,90 e R$39,90. Todos os pratos acompanham arroz, feijão, salada e uma "mistura" opcional à escolha do freguês (purê de batata, fritas ou legumes na manteiga). Em São Paulo tudo é caro e o nhoque definitivamente não é a melhor opção nesse setor, mas sabendo escolher e levando em conta a região é possível dizer que dá pra almoçar de forma honesta no estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar, ao menos na teoria. Se os pratos são bem servidos ou não terei que descobrir em uma outra oportunidade.



Minha estratégia nessa visita foi escolher algo que estivesse mais alinhado com os pontos fortes da casa, e para minha sorte encontrei uma seção no cardápio em que lia-se ESPECIALIDADES KENZIE. Não tinha comido nada o dia todo e o pastel, meu plano inicial, não oferecia a SUSTÂNCIA necessária para a ocasião. Com isso em mente, o sanduíche chamado de LARICKENZIE me pareceu a melhor opção do cardápio (preciso confessar que um dos fatores que pesou na escolha foi a oportunidade de escrever LARICKENZIE neste diário virtual).

Amigas, que decepção.

Uma ofensa aos lariqueiros desse país (Foto: acervo pessoal)

Pão francês, filé de frango, queijo prato, cebolas refogadas no shoyu e maionese da casa - essa era a promessa do sanduíche LARICKENZIE, que falhou em alcançar seu potencial. O filé de frango era da espessura de uma folha sulfite e as prometidas cebolas refogadas no shoyu se traduziram como uma quantidade assustadora de cebolas num único sanduíche (eu gosto de cebola, mas não vi vantagem). O blend entre o queijo e a maionese da casa salvaram a experiência de ser uma decepção total. Longe de ser um prato indicado para casos de larica, como sugere o cardápio do estabelencimento """Kenzie""" Restaurante e Bar, o sanduíche LARICKENZIE me deixou com fome, e nem era esse o meu estado. Tentei comer um pouco do nhoque com iscas de frango, que meu amigo deixou quase inteiro no prato, mas também não fui feliz.

Agora vem a pior parte, o preço: R$20,90 por um LARICKENZIE ineficiente. Acho que nenhum dos mackenzistas barbudinhos e estilosos presentes no recinto teria a capacidade de me fazer de trouxa nesse nível. 

A grande ironia do nome foi expressa de forma singular pelo meu amigo ao olhar com tristeza seu prato de nhoque:

- Se eu estivesse drogado dava pra bater esse prato inteiro como se fosse a melhor refeição da minha vida. Uma pena.

***

Apesar de não ter tido uma boa experiência, preciso ser justa e reconhecer que, como quase tudo nessa vida, o estabelecimento """Kenzie""" Restaurante e Bar tem um saldo final que é o famoso Vai de Cada Um e do que você espera do seu bar universitário. O acesso fácil pela estação Higienópolis-Mackenzie e os corredores de ônibus da Consolação é um ponto forte a favor e os preços podem ser vantajosos para quem só vai beber ou turmas grandes interessadas em dividir as porções bastante escandalosas de carne. Voltaria no almoço pra experimentar o PF.

Quem busca um ambiente heteronormativo de paquera e azaração também pode se dar bem, mas se você é mulher recomendo paciência e sangue de barata.

"Bom e Barato! Um pouco quente no verão. O Wi-Fi não pega a partir da 3ª mesa, o que acaba sendo uma desculpa para sair e encontrar um (sic) das 501 Mackenzistas da Maria Antônia" (Fonte: Foursquare)

Na condição de pessoa que não gosta de jovem e não gosta de gente, os pontos fortes pra mim foram o preço da cerveja, o banheiro limpo (posso ter dado sorte, mas foi o bar universitário com banheiro mais limpo que já visitei), e as muitas opções de coisas pra comer, que é algo que poucos bares oferecem. Eu sou uma pessoa que precisa comer e é bom ter algo além de batata frita e salgado de estufa. Nesse aspecto, os bares universitários da rua Doutor Cesário Mota Júnior, logo ao lado, deixam a desejar - embora sejam campeões em todo o resto. 

Além disso, a necessidade patológica do jovem de beber em pé na calçada faz com que seja fácil encontrar uma mesa pra sentar e que na parte de dentro o ambiente seja menos insuportável.

5/10

* Depois da última manifestação pela educação eu prometi que não ia mais falar mal de mackenzista como esporte (inclusive tenho amigos que são), de modo que peço que o texto seja lido com o senso de humor necessário. Se você estiver pensando em comentar algo como "nem todo mackenzista não sei o que não sei o que lá" peço por favor que honre a instituição fazendo uso das habilidades de interpretação de texto e me economize.